‘Cupu’, Pará e alguns contos em: Cozinha para quem não Cozinha

Antes de começar a escrever qualquer coisa, me sinto na obrigação de confessar algo a vocês que estão me lendo agora, para que minha posição seja devidamente situada. Tenho 29 anos, saí da casa dos meus pais há dez anos e não aprendi a cozinhar nada direito durante todo esse tempo. Nada.

Durante a faculdade, cozinhava apenas para minha sobrevivência, na forma mais pura da subsistência: como cozinhar macarrão, fritar uma carne de forma adequada e como deixar o arroz aceitável. Tudo isso sem nenhum tempero, só na base da água e do óleo, já que eu sempre morri de medo do sal. Era adolescente, e uma vez minha pressão estava a 14 por 10, o suficiente para me criar um pânico eterno quanto a isso.

Nunca mais tive sinal algum de pressão alta, mas jamais tive coragem de botar uma pitadinha de sal na panela.

Como vocês podem imaginar, foram anos gastronomicamente difíceis, durante os quais meu arroz atingiu no máximo uma nota 5, em uma escala na qual 0 representa um angu papado e 10 é o Tio João que vemos na propaganda. Eu fui conhecer a pimenta do reino uns seis anos depois dessa fase, para se ter uma ideia. Praticamente um navegador europeu do século XV, todo pimpão desbravando oceanos, conhecendo as especiarias da Índia e traficando pimenta a preço de ouro.

Minha criatividade na cozinha variava apenas em torno do macarrão instantâneo, desenvolvendo receitas deliciosas para acompanhar o miojo – da básica salsicha ao elaborado molho-de-muçarela-com-restos-sortidos-de-frango-da-janta-de-três-noites-atrás-que-estava-a-ponto-de-azedar. Se eu colocasse o nome desse rango em francês, com certeza venderia fácil na entrada da faculdade (uma pena que o fenômeno da gourmetização só veio bem depois).

De toda forma, sobrevivi bem a essa época, apesar de algumas diarreias causadas pela comida estragada que eu mexia com farofa e ovo aos sábados. Lembro, com bastante orgulho, da primeira vez que fiz um strogonoff de forma correta.

Algumas vitórias, mesmo que pequenas, a gente nunca esquece.

O problema é que essas vitórias ficaram no passado, e depois de formado eu me acomodei, passando a escolher melhor as pessoas para dividir república: não importando o local, não importando as condições, sempre morei com pseudochefes de cozinha, amigos que tinham aspirações culinárias e me sustentavam na arte do bom paladar. Lavei muita pia para pagar essas regalias, mas digo que todas valeram a pena.

Porém um dia eu deveria criar vergonha na cara e aprender algo sério. Chegamos a certa idade e precisamos impressionar as pessoas, seja um almoço de amigos, seja numa janta romântica. Lembro que minha primeira experiência gastronômica elaborada foi no Natal de 2010, quando morava no Pará (longa história, um dia explico como fui parar lá) e participei da ceia de fim de ano mais diferente da minha vida.

Primeiro porque não era uma ceia, era uma cilada – tive que trabalhar como condenado naquela ocasião. Chegamos na casa onde aconteceria o evento e nada estava pronto. Nada.

Ao entrar, cada convidado foi recepcionado com um avental, instruções e olhares bravos de Dona Selma, a governanta que iria gerenciar toda a confusão: para celebrar o espírito natalino, cada pessoa ficaria a cargo de um prato da ceia.

Como eu era o menos capacitado de todos ali, ganhei a responsabilidade de ficar mexendo o camarão no molho, para fazer vatapá. Não me perguntem um ingrediente daquilo, pois não me lembro, apenas ficou a recordação desse primeiro contato com a comida de verdade. Além disso, minha única função era apenas mexer o molho na panela e tentar não estragar nada com minha mão errada.

E depois desse primeiro contato, descobri coisas novas,  como de as comidas típicas do Norte serem todas interligadas. Em algum lugar do passado, ou do futuro, elas vão se encontrar.

Por exemplo, o tucupi, que é um molho que você coloca no frango ou no pato, e que é bom pra caramba. Ele vem da mandioca, que é espremida (pelo tipipi ou titipi) e fervida. A mesma mandioca que dá a folha da maniva, que é venenosa. Mas se você ferver a maniva por 7 dias e 7 noites consecutivas, você pode fazer a maniçoba, que é mais ou menos igual uma feijoada, só que sem o feijão.

E esse tucupi vai também no tacacá, cuja receita ideal é uma concha pequena de tucupi no fundo, uma goma no meio e outra concha de tucupi preenchendo o pote, mas dessa vez uma concha grande. Agora, adivinhem de onde vem essa tal de goma.

Da mandioca, também. Se um dia acontecer algum apocalipse no planeta, eu quero estar próximo a uma plantação de mandiocas (sem brincadeirinhas de sacanagem, por favor), desde que não seja em formato de goma, que nada mais se assemelha a uma meleca gigante extraída de um nariz bem constipado.

Ah, estava esquecendo de dizer que para completar o tacacá, você pode jogar uns camarõezinhos, aqueles mesmo que eu estava a mexer para o vatapá da ceia de Natal. Ou então a folha de jambu, que também pode ser colocada no pato ao tucupi, e que deixa a língua dormente e com tremeliques, desde que cozinhada no ponto certo (sugestão: coma bastante folha de jambu e depois beba um copo de Coca bem gelado).

Das comidas do Pará, só não achei um jeito de interligar o cupuaçu com essa misturada aí de cima, até porque só gosto de fazê-lo com leite condensado. Eis uma boa receita para essa fruta:

Duas latas de leite condensado
Duas de creme de leite
Um abridor de latas
Uma tesoura
Uma geladeira
Um liquidificador
Um cupuaçu, obviamente

Como fazer:

Pegue o cupuaçu e o abra. Para isso, você provavelmente  terá que quebrá-lo, jogando a fruta no chão. Com a tesoura, separe a coisa gostosa do cupuaçu do caroço. Guarde-o para fazer artesanato e comercializar miçangas na feirinha de sua cidade.

Jogue a parte gostosa do ‘cupu’ no liquidificador e abra as latas de creme de leite e leite condensado, não necessariamente nesta ordem. Misture tudo no liquidificador, por um tempo que eu não sei direito ao certo (mas na hora que o trem der liga, você vai saber).

Ressalto que é de suma importância chamar o cupuaçu de cupu, pois é uma fruta bastante sentimental e assim você demonstra carinho com ela.

Por fim, deixe isso na geladeira, por um tempo também indeterminado, e pronto. Coma o creme de cupuaçu sozinho, ou com bolo, ou com biscoitos, ou com qualquer coisa nesta vida, porque é uma delícia.

Bom apetite.
mapa2 Angelo Lameu, 29 anos.
Engenheiro de Produção 
Um mineiro em São Paulo.

 

Agora os leitores do Ingrediente da Vez receberão noticias lá da terra da garoa. Acompanhe e fique por dentro de tudo que rola em SP e no mundo através do paladar e olhar do Angelo Lameu. Se preparem para contos, encontros e desencontros gastronômicos.

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