Cadernos de receitas da vovó não perderão seu lugar

Há dias estou com uma chamada na cabeça: “Caderno de receitas da vovó perde lugar para vídeos curtos na Internet”, sem saber lidar com o “perde lugar” fico aqui quebrando a cabeça apenas pensando: Como explicar para essa geração avessa que “ganha lugar” que está tudo errado?

Realmente, os tempos são outros e se os iniciantes da culinária se basearem nos hambúrgueres suculentos e nas sobremesas cremosas cheias de chocolate de 40 segundos – tempos difíceis virão.

No livro O que Einstein Disse a seu Cozinheiro, o químico Robert L. Wolke recomenda “Compreender nossa comida” segundo ele, saber de onde ela vem, do que ela é feita e o que acontece quando cozinhamos, alimenta nosso intelecto e pode contribuir bastante para nossa satisfação – tanto em cozinhar quanto em comer. Com isso, acredito que os iniciantes e possíveis amantes da gastronomia não estejam interessados em preparações do tipo junk food. Os vídeos atraem adolescentes e possíveis amadores (assim como a maioria dos que se dizem ‘chefs’ e que se dedicam a essas mirabolantes e chamativas receitas de internet).

Não me incomoda o bum gastronômico na internet. O que chega a causar aquela dor na boca do estômago é como podem dizer: PERDE LUGAR. O caderno de receitas não perde lugar para os vídeos na internet (não é só eu que penso assim – assista ao vídeo inteiro abaixo, mas se for seu estilo viver de minutos 00:57 até 02:01). Engana-se quem acredita que os jovens youtuberes nascem sabendo – existe aquele caderno de receitas na gaveta da cozinha que veio da mãe, da avó e da tataravó, sabe aquela senhorinha fofa de cabelos brancos acredite, ela está trás de uma receita mirabolante preparada nos dias de hoje, pode confiar. 

Há um ano recebi de “herança” dois livros de receita antigos, um faz referencias a nutrição, já o outro me conquistou no primeiro contato. Chegou a minhas mãos um livro de capa dura com folhas amareladas por conta do tempo e na lateral: “Dona Benta: Comer Bem” (1960). Esse ganhou lugar cativo na minha cozinha/cabeceira e dele tenho preparado verdadeiras receitas, que por sinal, vez ou outra vejo no Youtube de 1 minuto e no Instagram de segundos. Acasos não?

O diferencial do meu livro “pesado e empoeirado” das receitas pela internet é que ele é tangível, tem sentimento, história, memórias e garantias sem surpresas: dá certo.

Coincidências do destino ou ironias da vida – duas semanas antes da publicação da matéria, estava atrás de algo “empoeirado” que perde lugar todos os dias, passa despercebido, que não está na internet e nem pode ser visto em vídeos rápidos.

Numa manhã destas deixei meu trabalho de lado e fui fazer o caminho contrário dos 40 segundos – fui garantir que o “livro de segredos” não fosse aposentado.  Após dias e horas – veja só: eu disse DIAS e HORAS de bate papo, histórias, calma e sorrisos largos tenho comigo os segredos do quiabo sem baba recomendado por Rosa Maria, à língua recheada ao molho branco da Conceição que segundo a mesma: “a receita é difícil” e ninguém prepara igual a ela. Passo a passo do rico e detalhadíssimo nhoque provolone da Barboza, as almondegas com arroz de forno da Alice, o pudim de leite condensado da Julieta e o tutu da Efygênia.

Por isso, jamais, em hipótese alguma diga que o livro/caderno de receitas da vovó perdeu lugar. O que se perde todos os dias é o interesse, o respeito e muitas vezes a memória. Apenas compreenda a existência dele e o que ele carrega consigo. Não o mate ou substitua, ele tem lugar cativo e é a essência por trás disso tudo.

Afinal, o que é feito e postado hoje na internet nada mais é que um bebê diante do que já foi impresso. É necessário ter a consciência de que assim como a neta que respeita aquela senhora doce de cabelos brancos que faz ou fazia biscoitos e bolos para um café da tarde as novas mídias devem respeitar as velhas.

 “Por que precisamos mudar a forma de planejar refeições e comprar alimentos?”

Para os amantes de vídeos veja Como Cortar uma Cebola. Sinceramente, o que me encantou nele não foi a técnica mágica de cortar uma cebola. O cozinhar – sim! A explicação do efeito que está pratica tem sobre quem cozinha é o que me faz insistir que o melhor lugar ou o coração de uma casa é a Cozinha.

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