Recanto de Beth Beltrão

Chef de cozinha preza pela história e a tradição de ingredientes que na maioria das vezes saem da sua horta direto para o prato do cliente.

“Quando eu era bem jovem, chegaram umas visitas em casa, minha mãe não estava, pensei: tenho que fazer alguma coisa pra eles comerem. Lembrei-me de um livro de receitas que tínhamos em casa e fiz um arroz e tomate. Meu avô nem acreditou e disseram que ficou uma delícia”, relembra a chef proprietária do Virada’s do Largo, Beth Beltrão.

Há 25 anos no comando do restaurante, a chef não sabe ao certo em que momento descobriu que o seu lugar era na cozinha, mas deixa a entender que isso sempre esteve com ela. “Acho que foi uma oportunidade de Deus me concedendo esse dom. Acho que nasci para cozinhar.”, declara.

A chef que trocou a carreira em informática pelas panelas diz que nunca pensou em ter um restaurante. Segundo Beltrão, ela caiu na cozinha por força das circunstâncias quando perdeu seu emprego em uma multinacional. “Perdi meu trabalho. Aterrissei em Tiradentes a passeio e, saindo para ir a um restaurante, vi uma placa de vende-se. Naquele momento tudo ficou resolvido na minha cabeça. Pensei: vou comprar esse restaurante e mudar o rumo do que vivi até agora”, explica Beth.

 “Vou trabalhar por prazer”

Com a coragem de uma aventureira, Beth estava prestes a uma mudança radical. Sem nenhuma experiência, mas com a certeza de que iria trabalhar com o que realmente gostava não baixou guarda e seguiu em frente. “Essa luta tinha que ser só minha, pois o mercado de trabalho estava muito complicado na época. Foi como se tivesse plantado uma semente e ela desabrochou com toda força”, relembra.

A chef que está em uma constante busca para não deixar que nossas raízes sejam perdidas com tempo, é curiosa e cheia de porquês em relação aos alimentos. “Chegava a algum lugar que tinha sugestões diferenciadas no cardápio e buscava saber a história dos ingredientes. Foi assim quando cheguei em Tiradentes e ouvi falar do ora-pro-nóbis, logo fui buscar a história dele e, assim por diante, com o chuchu do vento, mangarito, catinga de mulata, inhambú, cará roxo, mandioca vermelha…”, relata.

Torrando Farinha

Como é a cozinha da Beth? “É tentar nunca perder a história e a fidelidade com a cozinha mineira, seus encantos, com inspiração, criação, harmonia e comprometimento.”, ressalta a chef. “A realização de se fazer o que se ama, se resume na minha equipe em um lema: ALEGRIA. Trabalhamos sorrindo, cantando e fazendo o que gostamos”, finaliza.

Adepta do movimento slow food, Beltrão acredita que sentar a mesa e apreciar os alimentos é uma nova forma de mudar a relação das pessoas com a comida: “Em número gênero e grau”, enfatiza. Para ela, a grande maioria das pessoas está estressada e apressada, “Eles acabam não vendo e nem sentindo o prazer que o alimento pode nos proporcionar. Não só pela saúde, mas pelo sabor.”, analisa.

Questionada sobre o mercado em que se cobra dos chefs que adotem posições, como defender patrimônios alimentares e entalecer o uso de ingredientes regionais, Beth diz não sentir muito essa cobrança talvez por morar numa cidade pequena, “Apesar de receber um público do mundo, procuro apresentar sempre além da tradição da cozinha mineira, ingredientes que para muitos é desconhecido”.

“Vou te dar um exemplo” descreve a chef: “umbigo de banana, batata doce da polpa roxa, mangarito, cará roxo, quase ninguém conhece ou já experimentou e são feitos de uma forma simples, mas que traz novos sabores”. Beth confia que cada chef ou cozinheiro tem seu conceito e sua direção, e reforça que eles não podem perder a história. “Se possível, eles devem resgatar e criar com alimentos que estão sendo deixados de lado por demorarem a produzir ou por não promoverem um retorno alto”. Para ela, a criatividade em cima de alimentos de raiz, que fazem parte da nossa culinária há décadas e décadas é hoje a moderna gastronomia mineira.

Alimento que vem da horta

No restaurante Virada’s do Largo, premiado como a Melhor Comida Regional no ano de 1996 a 2005, pelo Guia Quatro Rodas Brasil, os alimentos que vão à mesa são da própria horta da casa, e para a chef, o seu maior orgulho é ver o olhar de admiração dos clientes, ao verem que grande parte do que é servido em sua comida está sendo colhido na hora e na frente deles.

“Tenho o maior prazer de garimpar por aí afora e sempre venho com um farnel de novidades e a cada momento tenho uma nova menina dos olhos, por isto não posso deixar de ter orgulho de cada item que tenho aqui na minha horta”, explica. De diferente, no quinta do Virada’s que possuiu mais de 90 itens, tem mandioca vermelha, mangarito, chuchu do vento, tomate de árvore, cará roxo, inhambú, catinga de mulata, tomilho limão, macadâmia, limão doce, jabuticaba branca, coentro do maranhão, entre outros.

Beth Beltrão, não canaliza sua cozinha só para os produtos regionais, ela traz ingredientes que a fascinam durante suas viagens pelo Brasil e afirma que “Apesar de não serem muitos usuais, não deixam de fazer parte de uma cultura brasileira”, assegura.

Horta no Restaurante (3)

Matéria produzida para o Jornal Hoje em Dia no caderno Território Gastronômicos do Chef Eduardo Avelar.

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3 Respostas para “Recanto de Beth Beltrão

  1. Muito bom, inspirados. Mais um motivo para se ir a Tiradentes. E vale a recomendação que o ato da alimentação tem profunda relação com o ser e com a vida.

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